segunda-feira, 29 de junho de 2009

quero cantar que nem meus pais

A magnífica e sutil frase do Chico "apesar de você amanhã há ser outro dia" me foi apresentada, a vários anos atrás, em uma campanha política da minha pequena cidade natal. Eu era muito nova, estava na terceira série mas me lembro muito bem do contexto: era uma gangorra onde, de um lado estava o símbolo do eterno partido político que governava despoticamente a cidade e de outro estava a constante e imutável oposição. A campanha era de um terceiro, aquele que sabíamos que não venceria. Lembro me muito bem que essa propaganda foi bastante polêmica e foi assunto por vários dias; era só a gangorra, de um lado para o outro e tocava "você que inventou de inventar esse estado e inventou de inventar toda essa escuridão" e lembro dos adultos, os sábios para mim naquela época, dizerem que sim, ele era o mais sensato. Entre os três, aquele terceiro era o que tinha melhores idéias, ideais, propostas. Ai eu perguntava: mão, tu vai votar no Siclano, né? Minha resposta era um inexplicável não. Inexplicável pra mim, tola criança que acreditava no zoroastrismo, naquela noção dualística do mundo entre Bem e Mal. Minha mãe dizia que não votaria nele porque ele não tinha chances... Obviamente, quem ganhou aquelas eleições não foi o nosso amigo com grande gosto musical, que eu, sozinha, torcia. Quem ganhou foi a oposição, para o delírio do poder. Mas, hoje eu vejo, a oposição já é a reação e vice-versa e ninguém entende direito mais o que é ideologia ou não.
Vai ver meu candidato também se corromperia, talvez apesar dele o amanhã continuaria um dia igual ao de hoje, não sei, provável. O que me frustra é essa facilidade de aceitar a política como é, os poderosos serem quem são, as leis serem aplicadas só a quem interessa. O que me revolta é essa capacidade que temos que ignorar para não se decepcionar. O que me indigna é estarmos tão atolados em escândalos, mentiras, roubos, polemicas, falsidades, corrupções que não conseguimos ver uma luz no fim do túnel. Antigamente, nos diziam "o futuro é de vocês, jovens! Lutem por ele!" e hoje eu tenho que ouvir, das mesmas bocas, "o melhor é sair desse país o quanto antes mesmo. Não há solução." e, ah!, que decepção!
Eu quero o meu futuro! Eu quero votar, fazer campanha, torcer, pintar o rosto! Eu quero a massa se manifestando, eu quero ideias. Cansei de usar o orkut para procurar pessoas interessadas nas mesmas musicas que eu... quero usar o twitter para ajudar a dês-alienar essa nossa juventude!
De criança sonhadora a jovem ideológica! Não quero mais Sarney e toda sua arvore genealógica ganhando a custo do suor da nossa sociedade. Não quero mais aquele geriatrias mandando e desmandando no Senado daquele jeito - aqui é ou não uma democracia? Não quero mais ver aqueles ministros, senadores, deputados passeando de avião e ligando para a Grécia enquanto nossas crianças trocam os livros por crack. Não quero mais viver nessa bolha que nós, jovenzinhos de classe media e alta, vivemos! Nós somos a diferença para aqueles coitados, nós somos a esperança! O futuro é nosso.
Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar
Chico Buarque - Apesar de Você

sábado, 27 de junho de 2009

e tuas mãos não estavam frias

No meu primeiro domingo de inverno ensolarado em Porto Alegre eu te vi. Ainda lembro da cor da tua manta, do sol se escondendo nos teus cachos. Andando meio sozinho, meio acompanhado de um casal, e eu não conseguia parar de olhar. Três, quatro dias depois fui no ensaio da banda de um amigo e eles tiveram que mudar o guitarrista emergencialmente: foi lá que te vi pela segunda vez. Meio tímido, muito charme. Sorriu para nós por pura simpatia obrigatória. Alguém te chamou de Bob Dylan e eu sorri e pensei: viu, não sou só eu que acho.
Durante três anos nos encontramos algumas varias vezes. Pareciamos ter alguns amigos em comum e acabávamos sentando na mesma mesa de vez enquando. Eu tinha que me controlar para não te olhar. Frequentavamos os mesmos locais e vira e mexe lá tu estavas, encantador. Uma vez eu dancei bêbada para ti; tu percebeu. Eu ia cair; tu me segurou. Por alguns segundos eu fiquei no teu colo e trocamos olhares cheios de segundas intenções. Mas, quem sabe pela tua parte também, aquelas segundas intenções não deixaram de ser intenções por causa do encanto que causamos um no outro.
Uma vez eu cheguei no nosso bar de mãos dadas com outro cara. Teu amigo. E sentamos na mesma mesa. Passamos a noite conversando, eu e tu. Eu te olhava e pensava "por que só agora?" e torcia para que tu pensasse " por que há mais pessoas aqui?", mas nossas frases foram regurgitadas pela boca e ficaram trancadas nos olhos.
Esse ano te vi duas vezes, até ontem. Nada demais, mas ontem... ah! quanto tempo eu não te via! Eu entrei e teus olhos estavam postos em mim. Te dei um 'oi' e percebi tua atordoação - mas rapidamente te recompôs e respondeu meu oi. E assim ficou, como sempre ficava. Mas eu te olhava e tu estavas me olhando. De repente, tua voz ao meu ouvido. Tua mão no meu ombro, tua risada, tua conversa, teu súbito interesse na minha vida. Tu não usavas a mesma manta e tinha as mãos quentes.
Nós tínhamos tudo para concretizar nossos três anos de desencontros. Mas, que medo tive eu de destruir a aurea de encanto que tinha o teu nome. Pavor de um coração partido, pavor de não poder mais sentar na mesma mesa que tu. Tivemos medo de não sermos o que sonhamos um para o outro? Tínhamos tudo para acontecer mas prefirimos esticar nosso sonho. Quem sabe ainda não era hora, quem sabe nosso momento ainda não chegou...
Quem sabe um dia tu deixes de ser só o meu Bob Dylan intocável e eu deixe de ser a ilustração que eu possa ser tua. Vai ver chegará o dia em que seremos só duas pessoas com um simples interesse em comum. Ou, quem sabe, tu serás minha eterna prova que tudo é perfeito do jeito que é e que deve ser.

terça-feira, 16 de junho de 2009

um pequeno poema que eu não sou poeta.

Tick-tack, tick-tack, tick-tack, tick-tack....
Hora de acordar, hora de levantar, hora de se vestir,
hora de se arrumar.
Hora de comer, hora de sair, hora de estudar,
hora de cansar.
Cade minha hora de amar?
Cade minha hora de conviver?
Cade minha hora de conhecer?
Tick-tack, tick-tack, tick-tack, tick-tack! Acorda!
Tick-tack, tick-tack, tick-tack, tick-tack! Levanta!
Quem me dera poder cumprir meu horário.
Bater ponto na hora certa - entrar e sair como manda o figurino e faz um happy hour no bar da esquina.
Sem peso na consciência, sem culpa - com horário cumprido o chefe não cobra.
Cobra, cobra, cobra horário, cobra eficiência, cobra habilidade
Cobra, cobra, cobra férias ao chefe - Quero férias, por favor!
Manda uma tempo vago pra vagar sem compromisso
Tick-tack, tick-tack, tick-tack, tick-tack?
Tick-tack, tick-tack, tick-tack, tick-tack...BUM.

sábado, 6 de junho de 2009

hoje o samba saiu

você era a favorita onde eu era mestre-sala
hoje a gente nem se fala mas a festa continua
suas noites são de gala, nosso samba ainda é na rua...

O pior que saber que não se sente mais é não lembrar o que já se sentiu. Sinto no peito um vazio inexplicável e que eu sei que é impossível de ser preenchido. Meio perdida, meio achada.
Meu peito quer um tempo e meu cérebro insiste em lembrar tudo o que eu tenho que fazer. Eu lembro daquilo tudo que já passei e já nem sei mais ao certo...
ah, quer saber? Por mais qu eu tente explicar o que eu to sentindo, essa letra traduz tudo melhor:

hoje o samba saiu, procurando você.
quem te viu, quem te vê...
quem não a conhece não pode mais ver pra crer,
quem jamais a esquece não pode reconhecer.

quando o samba começava você era a mais brilhante e se a gente se cansava você só seguia adiante.
hoje a gente anda distante do calor do seu gingado; você só dá chá dançante onde eu não sou convidado.
o meu samba assim marcava na cadência os seus passos, o meu sonho se embalava no carinho dos seus braços.
hoje de teimoso eu passo bem em frente ao seu portão pra lembrar que sobra espaço no barraco e no cordão.
todo ano eu lhe fazia uma cabrocha de alta classe de dourado eu lhe vestia pra que o povo admirasse
eu não sei bem com certeza porque foi que um belo dia
quem brincava de princesa acostumou na fantasia.

hoje eu vou sambar na pista, você vai de galeria
quero que você me assista na mais fina companhia
se você sentir saudade por favor não de na vista
bate palma com vontade, faz de conta que é turista!

quarta-feira, 3 de junho de 2009

um culto ao bulbo

Aurora já não sabia mais sambar. Na vida, havia quebrado o pé. Tinha quebrado o pé da vida e já via que todo o chão era assas hostil para pisar. Aurora nem queria mais ver o que restava do pôr-do-sol. Ela não sabia já sambar mais.
A morte tinha a encarado. Frente a frente com aquele rosto tão frio, tão cínico. Parecia que a Dona ainda sorria, enquanto arrancava, não com pouco esforço, Julio dos braços de Aurora. Aurora puxava perna, puxava braço, agarrava os frios crespos daquela braba até que, segurava um nada. Já Julio levava tudo. Levava ele, levava seu calor, levava sua amada. Aurora se via indo e se via ficando. Aurora ia e ali ficava. Aurora sozinha ficava. Levaram todo seu gingado, seus passos treinados com tanto esmero.
Aurora não queria mais saber de sambar. Na tragédia, tinha perdido suas pernas. Não tinha mais piso para se assentar. Nem Chico, nem Elis, nem eu, nem você - ninguém conseguia criar a trilha para parar aquele pranto. Julio levava toda a musica e o único som que deixou Aurora ouvir foi o eterno barulho daquele carro apressado. Apressado demais para apressar a vida de alguém. Julio passava e aquele barulho de motor se aproximava... Julio ficou e o barulho de motor se afastou. Aurora não queria mais ver ninguém sambar.
Um culto ao bulbo, meus amigos! Um culto àquele que faz continuar. Um ode ao bulbo que mantém os movimentos involuntários enquanto o que o cérebro quer é parar. Um ode àquele que avisa ao nosso diafragma que deve subir. Um aleluia ao bulbo que lembra nosso coração que ele deve continuar bombeando.