quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Fuga de Si

A seqüência foi invertida para mim, pensava. Foi sempre independente quando criança, brincava horas e horas sozinho. Nunca realmente fez amigos porque não os sentia falta, era auto-suficiente para se divertir. Nunca criou lembranças durante a infância e hoje se surpreende por não ter uma memória sequer daqueles tempos. Hoje, quando deveria estar sozinho, já não consegue mais agüentar a sua presença. Hoje, quando deveria ser independente, exclama por alguma companhia. Quando morava com os pais, vivia trancafiado em outras peças. Agora que mora sozinho, procura companhia até nas janelas dos vizinhos.
Chegou a conclusão que cansou de si. Não agüentava mais aquele rosto enjoativo no espelho. Quando chegava sozinho em casa, entediava-se em menos de meia hora. Qualquer convite para sair, era o primeiro a ir. Ia para os lugares e encantava qualquer um com a sua espontaneidade, sua loucura. Era o Louco, o Expressivo, o que Não Tinha Vergonha de Nada. Bebia até cair e estava sempre de rolo com alguém. Ninguém que não o conhecesse entenderia a sua profunda tristeza.
Quando alguém entrava em sua vida, havia sempre uma nova reviravolta em sua realidade. Tudo que já existia não era tão importante quando aquilo que era novidade. Entregava-se, de braços abertos, a tudo aquilo que o fizesse fugir do seu tédio. Que o fizesse fugir de si mesmo. Ansiava não se encontrar e assim, com cada novo relacionamento, se conhecia menos. Cada dia que passava, menos conhecia aquele rosto cansado na frente do espelho. Cansado de ser esquecido, cansado de ser posto em segundo plano.
Mas, na primeira vez que se viu sozinho, não sabia mais o que fazer. Temia entrar no seu apartamento e ver todas aquelas lembranças doloridas. Não conseguia ver alguma coisa boa em tudo que o cercava e tinha ódio do mundo. Ódio: exilava ódio, suava ódio, cuspia ódio. E, ao parar na frente do espelho se assustou: já não sabia mais quem era aquele rosto abandonado e destinado à solidão

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Circunstancias

Para ele sempre foi algo relativamente fácil fugir da verdade. Perdia-se pelo mundo, conhecia novas pessoas, tinha sede por diferentes culturas. Quando estava em casa, nunca estava realmente ali. Se, por um acaso, alguém surgisse com a verdade, ele logo tomava um gole brusco daquilo que estava em seu copo e dava uma desculpa para se retirar. Enquanto a verdade não vinha, ela própria, lhe falar, ele aprendia a fugir dela. Até que um dia ela veio lhe cumprimentar; ela sorria e vinha com aqueles seus gestos destrambelhados e o fascinava tanto. Com certeza ela não era a mulher mais linda com que ele já se envolveu e nem a menos complicada. Mas ele não resistia aos seus cabelos despenteados e aos seus gritos histéricos. Nunca entendeu porque ela o mexia tanto, porque mesmo sem vê-la por anos sentia que ela estava sempre presente.
Ela lhe deu um beijo na bochecha - só um, como se fossem íntimos ainda - e disse "Quanto tempo, querido!" e ele, simplesmente, concordou com um gesto com a cabeça. Naquele momento ele abriria mão de tudo; largava namorada, emprego e familia, brigava com Deus e todo mundo se fosse necessário. Tudo o que ele queria era aqueles dias de volta.
Eles foram um casal feliz. Para os amigos, nunca houve uma mulher tão parecida com ele e tão compreensiva com os seus defeitos. Ela era a única que sabia ignorar a sua arrogância e ele sabia que ninguém era um melhor ombro para ela do que ele. As circunstancias os separaram e colocaram outras pessoas no caminho. Essas pessoas nunca ficavam por muito tempo e, quando se cansavam delas, desejavam fortemente se ver. Ela chorava até lhe beijar, ele simplesmente a acompanhava com um fôlego desesperado. Novamente um ia para cada lado.
Conforme isso acontecia, mais ele condicionava-se a não tê-la. Ele sabia que ela vinha e voltava, sabia que eram um do outro. Mas ele também sabia que existiam várias pessoas que o amavam tanto quanto ela porém, simplesmente, eram acessíveis e menos complexas. Ela enlouquecia toda a vez que era abandonada por alguém e tinha um desejo desesperado de encontrá-lo, amá-lo, e não se importava se tinham outras ocupando o seu lugar. Aquele lugar sempre foi dela.
Conforme ela tirava os braços dos dele, ele suspirava arrepiado: sua namorada estava ali, ao lado. Ela cumprimentou a garota também com um ar de superioridade, como se soubesse que aquilo não duraria muito. E, no mais, ela estava tão cegamente apaixonada pelo seu namorado, que não se encomodava com a garota.
Ele via ali a verdade, ela era a sua verdade. A inconstância, o desespero, os choros e os beijos frustrados. Ele tentava negar o prazer que ele sentia naquela verdade, tentava dizer para si mesmo que não podia voltar a amá-la. Ela já estava meio bêbada, como sempre. Logo ela ia começar a abraçar todos os homens presentes, gritar e dançar enlouquecidamente. Ela não tinha respeito por ninguém, pensava ele, nem por mim nem pelo seu namorado que está viajando. Logo ele termina com ela, pensou ele, e ela vem chorar nos meus braços... graças a Deus, sorriu ele.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Meu Bob Dylan

Meu caso de desejo incompreendido foi (é) um amor platônico pelo Bob Dylan. Eu amei o Bob Dylan e ele me amou, tenho certeza. Ele escreveu musicas para a Luíza, e junto comigo cantou Just Like a Woman (eu no backvocal, óbvio). Sempre que eu via um cara, procurava suas características dylanescas. Se não fosse crespo e magro, nem olhava pra mim. Voz fina? Cai fora. Passei um ano olhando para um cara que tinha o máximo que eu encontraria de Dylan. Ele cantava, fumava com a perna encostada na parede, era magéérimo (quase aidético, lindo) e tinha a voz mais blasé que eu já tinha ouvido. E amava a Bob Dylan. Uma tarde, botei o Blonde on Blonde e fiquei olhando para ele, sem camisa e de pés descalços, conversando com um mendigo. Era o amor da minha vida, era só ele me notar. Se ele quisesse, eu alisada o cabelo pra ficar igual a Joan Baez. Juro. Ai ele foi pra cama com uma amiga.
O tempo foi e eu achei outro Dylan. Ok, nunca o vi cantar e ele era baixinho. Magro e barbudo, tipo Dylan na época pós-gospel. Mas né, cigarro no canto da boca e pé na parede, só com os fones...seduziu. Bom, resumindo, esse deu certo. Deu certo até ali, quando éramos um deslumbrado pelo outro. Ele tinha aquele ar de não-sei-o-que e eu, bom, eu deveria ter algo que o fizesse louco por mim. Juntos, ele começou a estudar, ele começou a ficar amigo de 'gente comum'. Mas, ai, ele tocou gaita de boca pra mim (Comprou até um daqueles suportes, igual o Dylan). E, comicamente, foi ele que me apresentou o meu primeiro (e mais original) Dylan. Mas o meu único Dylan conquistado era verdade para mim. Até ele raspar a cabeça e ficar um hooligan. Até eu parar de me arrumar e usar a mesma camiseta. Estudamos juntos e paramos de ir no boteco sujo, íamos, só em fim de semana, no bar badalado da cidade. Estava tudo perdendo o encanto e eu já não era mais deslumbrada por ele, tinha começado a amá-lo: estraguei todo o nosso relacionamento.
Meu Bob Dylan não pegou mais no violão, ficou jogando guitar hero. Não leu mais Bukowski e sim o chato do Woody Allen. O cabelo ficou estranho, deixou de ter a magreza de doente e, chegou o verão.. acabou as mantas perfumadas e viram havaianas e bermudas! Deus! Meu Bob Dylan virou o Bleecker!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Chuva

Enquanto a chuva caia em seu rosto rosado, um vazio ia tomando conta de seus pensamentos. Não demorou muito para que ela se deslocasse da realidade e apreciasse aquela dor de um diferente ponto de vista. O tempo que levou para criar coragem e encarar seus problemas pareceu ter tomado de uma eternidade e o sentimento de inaptidão foi por tempo seu tão longo presente. Demorou tanto para chegar ali e, agora, parece que foi tudo tão rápido.
Enquanto a chuva caia em seu rosto, as lágrimas competiam com as gotas de chuva. Parecia que, quanto mais gritava, mais forte era o fenômeno. Fenômeno que combinava com o seu estado de espírito, algo que, de tão cheio, estava prestes a desabar. Trovejava dentro de seu coração, chovia em seus olhos. Sentou-se ali, entre árvores sujas, para mastigar sua dor. Queria alimentar-se dela, nutrir-se dela, para depois pô-la fora. Sabia que aquela dor não deveria ficar dentro de si por muito tempo, sabia que não valia a pena. Cada mordida, um grito de dor posto fora.
Enquanto a chuva caia em seu rosto, cada vez mais forte, lavando cada parte de seu corpo pálido, ela sentia que tudo tinha acabado. Todos os seus esforços haviam sido em vão. Percebia, com uma angústia que só ela sentia, que havia escolhido a pessoa errada para dividir suas feridas. Elas nunca iriam cicatrizar com alguém que não as enxergava. Percebeu que foram meses em solidão, disfarçados com a companhia de alguém que nunca lhe foi comum. Atraia-lhe muito a idéia de que alguém podia ser tão feliz consigo como ele era. Tão competente, tão confiante, tão tranqüilo com seus passos. Imaginava que alguém assim a curaria de sua auto-destruição. Mas, a verdade era outra, percebia. Encharcada de dor e de verdades, gritava no ritmo das trovoadas.