A seqüência foi invertida para mim, pensava. Foi sempre independente quando criança, brincava horas e horas sozinho. Nunca realmente fez amigos porque não os sentia falta, era auto-suficiente para se divertir. Nunca criou lembranças durante a infância e hoje se surpreende por não ter uma memória sequer daqueles tempos. Hoje, quando deveria estar sozinho, já não consegue mais agüentar a sua presença. Hoje, quando deveria ser independente, exclama por alguma companhia. Quando morava com os pais, vivia trancafiado em outras peças. Agora que mora sozinho, procura companhia até nas janelas dos vizinhos.
Chegou a conclusão que cansou de si. Não agüentava mais aquele rosto enjoativo no espelho. Quando chegava sozinho em casa, entediava-se em menos de meia hora. Qualquer convite para sair, era o primeiro a ir. Ia para os lugares e encantava qualquer um com a sua espontaneidade, sua loucura. Era o Louco, o Expressivo, o que Não Tinha Vergonha de Nada. Bebia até cair e estava sempre de rolo com alguém. Ninguém que não o conhecesse entenderia a sua profunda tristeza.
Quando alguém entrava em sua vida, havia sempre uma nova reviravolta em sua realidade. Tudo que já existia não era tão importante quando aquilo que era novidade. Entregava-se, de braços abertos, a tudo aquilo que o fizesse fugir do seu tédio. Que o fizesse fugir de si mesmo. Ansiava não se encontrar e assim, com cada novo relacionamento, se conhecia menos. Cada dia que passava, menos conhecia aquele rosto cansado na frente do espelho. Cansado de ser esquecido, cansado de ser posto em segundo plano.
Mas, na primeira vez que se viu sozinho, não sabia mais o que fazer. Temia entrar no seu apartamento e ver todas aquelas lembranças doloridas. Não conseguia ver alguma coisa boa em tudo que o cercava e tinha ódio do mundo. Ódio: exilava ódio, suava ódio, cuspia ódio. E, ao parar na frente do espelho se assustou: já não sabia mais quem era aquele rosto abandonado e destinado à solidão
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
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Se trocássemos os artigos desse texto descobriríamos o sujeito?
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