segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Circunstancias

Para ele sempre foi algo relativamente fácil fugir da verdade. Perdia-se pelo mundo, conhecia novas pessoas, tinha sede por diferentes culturas. Quando estava em casa, nunca estava realmente ali. Se, por um acaso, alguém surgisse com a verdade, ele logo tomava um gole brusco daquilo que estava em seu copo e dava uma desculpa para se retirar. Enquanto a verdade não vinha, ela própria, lhe falar, ele aprendia a fugir dela. Até que um dia ela veio lhe cumprimentar; ela sorria e vinha com aqueles seus gestos destrambelhados e o fascinava tanto. Com certeza ela não era a mulher mais linda com que ele já se envolveu e nem a menos complicada. Mas ele não resistia aos seus cabelos despenteados e aos seus gritos histéricos. Nunca entendeu porque ela o mexia tanto, porque mesmo sem vê-la por anos sentia que ela estava sempre presente.
Ela lhe deu um beijo na bochecha - só um, como se fossem íntimos ainda - e disse "Quanto tempo, querido!" e ele, simplesmente, concordou com um gesto com a cabeça. Naquele momento ele abriria mão de tudo; largava namorada, emprego e familia, brigava com Deus e todo mundo se fosse necessário. Tudo o que ele queria era aqueles dias de volta.
Eles foram um casal feliz. Para os amigos, nunca houve uma mulher tão parecida com ele e tão compreensiva com os seus defeitos. Ela era a única que sabia ignorar a sua arrogância e ele sabia que ninguém era um melhor ombro para ela do que ele. As circunstancias os separaram e colocaram outras pessoas no caminho. Essas pessoas nunca ficavam por muito tempo e, quando se cansavam delas, desejavam fortemente se ver. Ela chorava até lhe beijar, ele simplesmente a acompanhava com um fôlego desesperado. Novamente um ia para cada lado.
Conforme isso acontecia, mais ele condicionava-se a não tê-la. Ele sabia que ela vinha e voltava, sabia que eram um do outro. Mas ele também sabia que existiam várias pessoas que o amavam tanto quanto ela porém, simplesmente, eram acessíveis e menos complexas. Ela enlouquecia toda a vez que era abandonada por alguém e tinha um desejo desesperado de encontrá-lo, amá-lo, e não se importava se tinham outras ocupando o seu lugar. Aquele lugar sempre foi dela.
Conforme ela tirava os braços dos dele, ele suspirava arrepiado: sua namorada estava ali, ao lado. Ela cumprimentou a garota também com um ar de superioridade, como se soubesse que aquilo não duraria muito. E, no mais, ela estava tão cegamente apaixonada pelo seu namorado, que não se encomodava com a garota.
Ele via ali a verdade, ela era a sua verdade. A inconstância, o desespero, os choros e os beijos frustrados. Ele tentava negar o prazer que ele sentia naquela verdade, tentava dizer para si mesmo que não podia voltar a amá-la. Ela já estava meio bêbada, como sempre. Logo ela ia começar a abraçar todos os homens presentes, gritar e dançar enlouquecidamente. Ela não tinha respeito por ninguém, pensava ele, nem por mim nem pelo seu namorado que está viajando. Logo ele termina com ela, pensou ele, e ela vem chorar nos meus braços... graças a Deus, sorriu ele.

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