terça-feira, 26 de maio de 2009

discografias da minha vida

Abbey Road - Beatles
Uma obra prima: Come Together, Oh! Darling, Something, You Never Give Me Your Money e I'm Want You - trilha sonora para qualquer momento. Não posso dizer que sou uma especialista em biografia dos Beatles, mas sou uma grande aprecidora da sua discografia e, com certeza, é nessa que eu mais me entrego.

Blonde on Blonde - Bob Dylan
Quando eu encontrar o amor da minha vida ( o Bob Dylan que Deus caridoso fez para mim em algum lugar do mundo) será essa trilha que vai tocar. Quando eu passar no vestibular, essa trilha vai tocar. Quando eu receber o maior pé na bunda, essa trilha vai tocar. Quando eu estiver fazendo uma viagem histórica, essa trilha vai tocar. Quando eu estiver em sintonia, essa trilha estara tocando.

Damien Rice - O
Damien foi o cara que mais tocou meu coração (sim, sou piegas!). Foi meu melhor amigo durante uma fase longa e profunda de transição emocional. Damien sempre me entendia e eu sempre encontrei em suas letras certas respostas que ninguém nunca soube me dar. Damien dói, lá no fundo. Mas Damien é Damien, e por isso sou eternamente grata.

Forrest Gump Soudtrack
Os maiores clássicos americanos! Um filme apoteótico e que fez minha infância: era o único cd do meu pai que eu podia mexer quando ele nao estava perto (já que os vinis eu só fui autorizada a tocar neles após meus 12 anos, mais ou menos). Ao meu gosto, nunca uma trilha encaixou tanto com o clima e com o contexto de um filme. Nem a sintonia de Another Brick in the Wall com Mágico de Ox é tão perfeita.

Aimee Mann - The Forgotten Arm
Aimee é tão ignorada aqui no Brasil, não conheço mais nenhum fã dela - mas mesmo assim, Aimee é mágica. Sua voz não é fantástica, nem suas melodias. Mas o conjunto de letras maravilhosas (sim, MARAVILHOSAS) e sua vozinha calma pode tanto levar alguém ao suicidio quando a perfeita paz - Aimee tem a capacidade de elevar emoções à terceira potência.

Coldplay - Parachutes
Os caras são foda. Ponto. Piano, letras agonizantes, voz profunda. Não preciso dizer mais nada. E podem, todos os reais fãs de Coldplay me crucificarem por ter escolhido esse cd ( o que tem a menor proposta para ser hit) mas, para mim ( e sim, eu tenho todos) é o mais lindo. Simples; lindo.

Elizabethtown
Para uma fanática pro trilhas sonoras como eu, essa é, das mais atuais, uma que sempre me surpreende. Toda a vez que estou na estrada, é a melhor pedida: Roll down your window, some musics needs air. Encontrei na Claire alguém que, como eu, tenta achar na vida o close perfeito.

Duffy - Rockferry
Linda. Vanguardista. Voz absurda. Pare e perceba a perfeição da roquidão da voz dela, das dancinhas, do estilo - das covinhas no rosto. Dyffy me encantou 100%, e não foi com a pop Mercy. Foram as letras de Delayed Devotion, Stepping Stone e com a doçura de Syrup and Honey e I'm Scared. Não se enganem os tolos, Duffy não está, nem nunca pode estar, na sombra de Amy. Ela não é uma Amy sóbria e loira. Ela é a Duffy e isso já basta, não?

Supertramp - Breakfast in America
Quando minha mãe botava esse disco, no máximo do volume do seu Três-Em-Um, já se sabia: minha mãe iria entrar em transe. Mesmo não sabendo ingles e com uma voz terrível (isso é genética, daonde eu iria tirar essa voz?) aquela cena era contagiante. Minha mãe chegava ao clímax quando pegava a vassoura e usava de microfone quando começava When I was young....

Once Soundtrack
Não, eu não vou comentar: i dont know you but i want you all then more for that. Words fall through me and always fool me and i can't react....


Queen - A Night at The Opera
Sim, eu fui uma pré-adolescente feliz com Queen! Enquanto minhas amigas iam para as reuniões dançantes no fim de semana, eu iria para nossa estância e meu vinil favorito era Night at the Opera, sem dúvidas. Hoje, ok, já não ouço mais tanto. Mas, eu sei até hoje cantar todinha a Bohemian Rhapsody e Love of My Life é, sim, uma das musicas romanticas mais lindas do mundo. Mercury, você é minha bixa favorita!

Moulin Rouge Soundtrack
Para finalizar, a trilha sonora do filme que todos sabem que é o filme da minha vida: Moulin Rouge. Fez muita coisa para mim e não é hoje que eu vou renegá-lo; nunca! Minha gata se chama Satine, meu primeiro DVD foi o Moulin Rouge (dado pelo meu primeiro namorado), meu primeiro presente de casa nova foi um quadro inspirado no filme, meu presente de quinze anos foi champagne no show Ferrie lá no Moulin Rouge e meu céu será vermelho, cheio de veludo, cinta-liga e cabelos ruivos.

take a sad song and make it better


ai eu ouvi "for well you know that it's a fool, who plays it cool, by making his world a little colder" e pensei que eu não quero ser mais um Jude no mundo, eu quero parar 'to make it better' e cantei o 'na na na na' afogada em lágrimas e perdida nas minhas decisões.

Cansei do menu popular

A breviedade da vida. Quem nunca falou a frase típica "como essa semana passou voando"? Pois é. Além de breve ela está se tornando deveras instantanea: amores instanteneos, paixões instantaneas, gostos instantaneos, desejos instantaneos. Não nos subtemos mais a toda aquela espera dos folhetins românticos; chegamos ao climax e logo já é o final - nunca há muito enredo. Deixamos de lado os romances para nos dedicarmos aos contos. Contos de pequenos paragrafos, pois nunca há muito espaço livre nas páginas. Beijar, sexo, mãos, pele, toque - banalidades. Calafrios, arrepios, sorrisos, conversas sérias, troca de telefone - frívilidades. A vida "porção única", nos apresentada no filme Clube da Luta, pelo incrível Narrador, está cada vez mais presente: amores porção única, amigos porção única, felicidades porção única. Gostaria de um combo, por favor! Quando vemos alguém que está a muito tempo em um lugar seguro e há muito tempo com a mesma pessoa dizemos que está perdendo tempo. A vida está ai, tem que aproveitar, tem que viver! Por que infernos nos condicionamos a achar que esse individualismo doentio é algo normal? Por que se critica tanto a pessoa que dedica sua vida a compartilha? Por que já é tão incomum ver grandes amigas de longa data ou casais que mantém o amor depois de vários anos de convivência? Por que temos tanto medo de "perder a vida com a mesma pessoa" e não percebemos que estamos perdendo a magia da intensidade?
Hoje eu quero pedir o menu especial: quero uma porção de verdade absoluta e uma dupla dose de amor sincero para acompanhar.

domingo, 24 de maio de 2009

quando o despertador grita

Conforme os dias passam, mais asco eu sinto pela voz do meu despertador. Nunca tive muito o custume de ter problemas ao acordar, tanto que por bons quinze anos meu despertador foi o grito meloso do meu pai lá do outro quarto. Essa sensação de 'me dá mais uns minutinhos' me irrita - atualmente, sinto um absurdo prazer em dormir. Sono para mim sempre foi algo controlável e não é mais - quando começa aquele piscar molengo, meio que desfocando o que eu to lendo, ou eu durmo, ou eu durmo. Quando acordo, olho para o relógio. Ah, quantas meias horas desperdiçadas! Ando com a idéia fixa da morte - não digo a minha, mas a morte de tudo que eu conheço como meu - e essa ideia associa com dormir demais: perda de tempo; perda de vida; morte.
Eram dez horas e eu ouvi aquela voz irritante: meu despertador gritava. A Satine, minha gata, me olhava com uma carinha de sono. Quanto toca o despertador tem sempre duas opções: desligar ou soneca. Se eu desligo e volto a dormir, inutilidade. Se ponho no soneca, na real não descanço mais (ninguém descança com o celular apitando de 5 em 5 minutos) e nem produzo algo - então, porque infernos eu fiquei clicando no soneca até as 10:25? Além de odiar o celular, eu fiquei o ouvindo cinco vezes, naquela malemolência ridicula. Quando eu paro e me analiso, nojinho tenho de mim por perder tanto tempo, tanta vida.
Mas quem infernos chega em casa as cinco da manhã, tonta do alcool, fedendo do cigarro, e põe despertador, num domingo (sim, despertador num domingo) para as dez da manhã? Sim, eu. Levantei. Nem me prestei a aquecer o café de ontem, foi gelado mesmo. Meu quarto, uma zona; meu cabelo, um ninho de rato. Dane-se, vou estudar. Tirar a maquiagem, comer e tirar as roupas do chão, só depois de estudar. Quem vai estudar com fome, suja e com ressaca (repetindo, cinco horas de sono) num domingo nublado? Sim, eu.
Cena patética: meu pijama listrado com recentes pingos de café velho. Nunca um café velho gelado caiu tão bem. Literatura, ok. Geografia, ok. Tinha um simulado para fazer. Tenho o custume de me castigar, me por desafios: se tu tá com fome, Luíza, só vai ir comer quando terminar o simulado - e ter que acertar no minimo 15, viu? Senão vai fazer o simulado de história. Sim, morar sozinha tem essas neuras: a gente aprende a falar consigo usando a terceira pessoa. Conversa com os bichos de estimação, com os tenis velhos atras da porta, com a pilha de jornal. Hoje prometi para o meu lixo que eu o ia levar para fora, mas ai, nunca fui boa com promessas.
Drama: vizinho retardado. Retardado no literal, só pode. Ele passa o dia ouvindo musicas ridiculas, cantando e rindo a risada mais ridicula que já ouvi. Bom, hoje ele resolvei fazer uma lavagem cerebral. Quando já contava a oitava vez, consecutiva, initerrupta, de 'so what - pink' eu já pirava. Literalmente, surtei. Não conseguia me consentrar com aquele 'nãnãnãnãnãnãña, i wanna start a fight' - gente, troca o disco, pelo amor de Deus! Bastou isso para passar o dia de mal humor. Botei meus fones de ouvido, ao som de um trilha instrumental. Na troca de musicas, lá estava a insuportavel da Pink: vadia.
Amanhã é mais uma manhã para odiar o despertador. Para cehgar em casa vesga de fome e de sono. Para tentar estudar tudo que eu preciso estudar. Para sentir toda a angustia que eu vivo sentindo. Tomar café gelado. Para tentar resistir ao meu inimigo mortal (sono). Para suar na academia. Para morrer no banho. Para ligar o computador. Ou seja, amanha, mais uma vez, aquela voz irritante do meu celular vai me chamar para a rotina, algo que eu sempre critiquei, e sabe o pior? Eu vou respoder, fielmente, ao meu celular: estou indo. Vou dar bom dia para minha gatinha, dar bom dia para o jornal, tomar café quente (novinho) e pegar minha velha bolsa.
Ah, fiz 18 questões do simulado de geografia.

terça-feira, 19 de maio de 2009

o cara que usa a mesma blusa numa sexta e numa terça

Estou com medo de perder. Senti algo, já faz uma semana, que nunca senti por ninguém. Convicção. Se chama convicção. Não vou dizer que é amor a primeira vista, que isso é coisa de filmes blockbuster. Mas eu não consigo parar de pensar nele. Digamos que desde que botei o olho em ti, na sexta, eu não consegui mais tirar a tua imagem da minha cabeça. Faz uma semana que vou deitar e te vejo encostado em uma parede, com camiseta do oasis e olhando para mim de canto de olho. Nunca tinha me faltado coragem, mas, não sei porque, tive medo de ir falar contigo. Tu me transmitia algo que nenhum outro um dia me transmitiu: convicção. Quando foste embora, sem me dar um sinal, botei na minha cabeça que aquilo tudo era uma piada; mas não pude evitar de passar o resto da noite entendiada.
Quando eu te vi a segunda vez, com os caras cantando Lyla no palco e tu com os olhos fixos em mim, meu Deus. Eu tive coragem, mas tive medo ao mesmo tempo. Além do mais, discripancia do destino, eu estava quase desmaiando e tentando fugir da multidão. Tu me deu oi como se me conhecesse; perguntou se estava tudo bem apertando meu ombro com tão suave delicadeza que ainda me arrepio só de pensar. Eu fui ridicula! Porque infernos eu só respondi 'e ai, tudo bem?' e porque infernos eu só apartei teu ombro? Tu piscou o olho e penetrou na minha mente de uma maneira que chega a doer.
Na comunidade do Oasis tem um post, muito comentado, chamado " A procura de Luisa"... nem o teu nome eu posso procurar. Essa sexta vou lá de novo, te procurar. Será que tu está me procurando? Será que sexta fosse lá e encostou na mesma parede? Será que tu me conhece ou só me deu oi porque minha imagem também está gravada na tua mente?
Mesmo com tantas dúvidas, eu tenho uma só convicção: eu preciso te achar.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

me atinge da melhor maneira

eu vou sair,talvez te encontrar
são cinco e meia da manhã - e cadê?

você sorri movendo quase nada e antecipa a velha longa estrada
e os teus galhos vão me arborizando nu,

domingo, 17 de maio de 2009

kidman.

em ti eu ainda confio.
ainda.


[nicole kidman em Nine - musical que estréia em novembro]

quarta-feira, 13 de maio de 2009

i start a revolution from my bed

Não sou de publicar criticas, opiniões ou conceitos objetivos. Não sei comentar algo de um modo objetivo, mas não é bem isso o que quero. Não vou explicar a sensação que mais de 12 mil pessoas tiveram nessa terça-feira mágica. Não vou dizer o que achei da acústica ou o quando alguém estava afinado ou não. Vou transpor o meu subjetivo.
Chego as cinco da tarde, já há muita gente na fila, todos extasiados com a idéia de, em poucas horas, ver Oasis ao vivo. Oasis! Havia os fãs uniformizados e as patricinhas bem vestidas. Havia os tiozões como havia os gurizinhos. Marido e mulher de mãos dadas com sua filha adolescente e com seu filho piá. Rockers, Emos, Hypes,Mods, gente normal, gente estranha, gente bonita, gente feia - tinha de tudo. Quem gosta da banda não gosta de um estilo, gosta de uma qualidade.
Das seis da tarde até as oito e meia, aglomeradas numa multidão, enfrente ao palco - era a situação lindamente crítica que estávamos. Que orgulho ver meu Cachorro Grande abrindo o show - e espetacularmente. Que emoção, pelas dez horas, ver as luzes se apagarem. Liam, Noel e todos aqueles mestres. Lá. Ali. Aqui!
Todos cantavam. Todos se emocionavam. Todos estavam lá, no palco. Com o microfone na mão. Era quase que impossível não fechar os olhos para absorver a imensidão que tudo aquilo ali nos provocava. Eu não conseguia parar de sorrir. Nem a garota do meu lado, preocupada em discutir com qualquer um que por ela pasasse, me irritava - no fundo eu sentia pena dela que não conseguia passar pela transe que eu estava passando.
Êxtase. Todas aquelas luzes, todas aquelas vozes, toda aquela atmosfera: podia ficar ali por muito tempo. Meus pés não doíam mais, eu não sentia mais cheiros e não sentia mais empurrões. Eu estava lá no palco, perdendo minha voz. O ponto culminante foi quando Liam anunciou "Wonderwall" e aquela galera, em uníssono. Liam nem cantou - se dignou a bater palmas a uma platéia de devotos súditos. E Noel superou sua mal-difamada arrogância para mostrar sua admiração com os fãs de Don't Look Back in Anger. Lindo, nenhum adjetivo é mais simples e mais fiel.
Depois de cantar I'm the Walrus com tudo aquilo que ainda eu tinha na minha garganta, minha amiga, suada, fala "Estou lavada" e eu, inocentemente, respondo "Lavada está minha alma" - eu sentia aquele sorriso rasgar meu rosto. Encontramos o resto da turma, cada um no seu estado de choque. Fomos para um bar, tomamos algumas cervejas. em silêncio. Cada um na sua abstração. Um amigo, que ainda não tinha falado nada com nada, disse, rindo "depressão pós-oasis". Ninguém concordou, ninguém falou nada. Nós estávamos no lugar onde ninguém sabe se é dia ou noite. Estávamos, cada um do seu jeito, absorvendo tudo aquilo. Um se sentiam supersônicos, outros eram estrelas do rock'n'roll por um dia.
O importante é que todos sabiam, naquele momento, que somos parte do plano mestre.

terça-feira, 12 de maio de 2009

oasis.


"dance if you wanna dance, please brother take a chance
you know they're gonna go which way they wanna go
we know is that we don't know how it's gonna be
please brother, let it be!
life on the other hand won't make us understand
we're all part of the Masterplan"

hoje o show vai ser absurdo
sem voz, só lágrimas, please brother, let it be!

quinta-feira, 7 de maio de 2009

once.


" and what chance do we got when you miss every shot from me?
and in the morning when you turn it, i'll be out of reach
and i the darkness, when you find this i'll be far to see
you have broken me all the way down, you will be the last, you'll see. "

"you're moving too fast for me and I can't keep up with you
maybe if you slowed down for me i could see you're only telling lies, lies, lies
breaking us down with your lies, lies, lies
when will you learn?"
"i can't wait forever is all that you said before you stood up
and you won't disappoint me - i can do that myself
but I'm glad that you've come now if you don't mind leave,
leave and free yourself at the same time leave,
leave, i don't understand, you've already gone"
"so, if you want something and you call, call
then'll come running to fight,
and I'll be at your door
when there's nothing worth running for"

"are you really here or am i dreaming, i can't tell dreams from truth
for it's been so long since i have seen you
i can hardly remember your face anymore
when I get really lonely and the distance causes our silence
i think of you smiling, with pride in your eyes a lover that sighs "

* já que por falling slowly é covardia
** e eu não sei escolher uma preferida

segunda-feira, 4 de maio de 2009

a segunda vez

Aquele olhar vazio penetrava e consumia Eduardo. Ela o encarava, ele estava hipnotizado. A partir daí, foi tudo muito rápido, alguém gritou algo. Ela se levantou correndo, desnorteada. Pegou a bolsa, quase derrubou a cadeira ao sair. Eduardo, parado. Eduardo, confuso. Eduardo, perdido. Eduardo, consumido.
Ela já estava quase que na porta, um homem, alto e magro, de jaqueta de couro, a puxava pelo braço. Ela fez um movimento brusco, meio que se desenredou dele e deu meia volta. Parou na frente de Eduardo que nem percebeu que estava encarando a mulher. Ela lhe deu um beijo, brusco, gelado, molhado. Eduardo continuou estático. " O batom do copo já deveria estar com um gosto ruim", falou ela, nervosa, com ares de apressada e, dito isso, virou as costas e gritou "Já estou indo, porra!" e sumiram. Eduardo olhava o movimento apressado daquelas costas curvas, o balançar apressado daquele cabelo loiro tão sujo.
Os fiéis de Eduardo o olhavam incrédulos: não sabiam se tinham acabado de ver um milagre ou o inicio de uma perdição. Começou a tocar um saxofone, ao fundo. Parecia que uma força sobrenatural tinha trocado o cd; nada mais da alma do que a batida de um Soul. E Eduardo, sentado, com os lábios encostados no batom seco, ainda sentindo o gosto dos lábios da loira. Claudio, ao perceber que aquela cena tinha chamado atenção de todo o bar, chamou Eduardo. Eduardo! Eduardo! Só a segunda vez, bem mais alta e mais frustrada, que ele levantou os olhos para o amigo e gritou "já estou indo, porra!" e se levantou.
Eduardo não estava com cara de quem queria explicar algo. Paulo, que o melhor conhecia, tentou inicar uma polêmica sobre o quão pouco o Soul é priorizado no Brasil. Em outras circunstâncias, Cláudio já teria começado a gritar com o Paulo, chamando o de burguesinho de uma figa e vendido para os capitalistas opressores. Mas não, Cláudio estava mais interessado em saber o que havia acontecido por ali. "Cara, o que foi isso? Não vai falar nada?" "Cala a boca, Claudio", tentava, em vão, Paulo. Eduardo começou a balançar a cabeça.
Eduardo tentava pensar, tentava entender o porquê tinha sentado ao lado dela. Tentava compreender o porquê de que o olhar dela era tão mais penetrante do que todos, o porquê seu batom era tão mais apimentado que os outros. " Cara, ela simplesmente desfocou a minha visão", foi o veredicto de Eduardo e tanto Paulo, quanto Cláudio decidiram não tocar mais no assunto.
Eduardo sempre usou a tática do desenho como um meio de concentração. Quando assitia alguma aula, desenhava no pé da página e assim concentrava todas as suas atenções no que o professor falava. Mas já fazia alguns dias que desenhava para retomar a memória mais relevante que tinha na sua cabeça. Tentava fazer com que as cervejas do resto da noite, não tenham desfigurado a imagem que tinha daquela loira. A sua loira! Aquele ombro à mostra, os olhos azuis, a maquiagem borrada, os olhos inchados, o esmalte vermelho descascado, os olhos profundos, o batom vermelho, os olhos. Os olhos, os olhos, os olhos. Desenhava seus olhos por todos os lugares, imaginava-se nadando na imensidão daquele mar azul, tão tenebroso.
Era já umas nove horas de sexta. Já fazia duas semanas desde aquele beijo, Eduardo estava em abstinência. Roberta já tinha ligado duas vezes para saber se iriam sair ou não. Eduardo só queria tomar uma cerveja, só queria sorver algo, só queria um anestésico ao seu desejo. Roberta estava ali. Cerveja estava ali. Era só chaviar a porta e abrir os portões para a vida boêmia. Roberta o buscou no seu apartamento, os dois foram para o QG.
Roberta não desgrudava. Eduardo já estava com asco daquela mulher tão certinha, tão bem vestida, tão inteligente, tão papo cabeça. Eduardo queria o tumulto daqules outros olhos azuis. Eduardo queria o devaneio daqueles cabelos embaraçados. Claudio chegou junto com um tal de Ciclano, que tinha uma cara de quem estava pela briga. Fazia já uns bons dez minutos que o Ciclano encarava algo nas costas de Eduardo e isso, junto com as mãos suadas de Roberta, estava o deixando tão irritado a ponto de sair correndo dali. Olhou para trás: para quê? Lá estava o cara que não tira o olho o Ciclano: o mesmo Beltrano de jaqueta de couro, alto e que era o último destino da loira. O cara que ouviu um"já vou", o homem que tinha domínio daqueles olhos azuis. Como alguém tinha domínio de tal poderosos olhos.
Ciclano falou algo do tipo "Não aguento mais" e partiu em direção ao Beltrano. Um soco estrondou no ar e silenciou o resto do bar. Eduardo, com que involuntário, levantou-se. Procurou, desesperadamente, ela. Viu, num canto, os olhos. Os olhos, ah!, os olhos!
Correu em direção a ela e a pegou pelo braço; imediatamente, Ciclano parou te bater no Beltrano para ver quem havia tirado a prêmio do lugar. Quando ia em direção a Eduardo, já com o punho erguido, o outro, já com o nariz sangrando, o puxou pela perna. Cláudio olhava para Eduardo, com um olhar suplicante, pedindo para que não. Eduardo disse, vem. Aqueles olhos vermelhos, perdidos, responderam com uma lágrima. Ela entregou sua mão às de Eduardo e deixou-se levar.
Essa foi apenas a segunda vez que viu aqueles olhos, tristes, dramáticos, vazios.

lost


- hei, do you still got my back?
- you still got mine?