Aquele olhar vazio penetrava e consumia Eduardo. Ela o encarava, ele estava hipnotizado. A partir daí, foi tudo muito rápido, alguém gritou algo. Ela se levantou correndo, desnorteada. Pegou a bolsa, quase derrubou a cadeira ao sair. Eduardo, parado. Eduardo, confuso. Eduardo, perdido. Eduardo, consumido.
Ela já estava quase que na porta, um homem, alto e magro, de jaqueta de couro, a puxava pelo braço. Ela fez um movimento brusco, meio que se desenredou dele e deu meia volta. Parou na frente de Eduardo que nem percebeu que estava encarando a mulher. Ela lhe deu um beijo, brusco, gelado, molhado. Eduardo continuou estático. " O batom do copo já deveria estar com um gosto ruim", falou ela, nervosa, com ares de apressada e, dito isso, virou as costas e gritou "Já estou indo, porra!" e sumiram. Eduardo olhava o movimento apressado daquelas costas curvas, o balançar apressado daquele cabelo loiro tão sujo.
Os fiéis de Eduardo o olhavam incrédulos: não sabiam se tinham acabado de ver um milagre ou o inicio de uma perdição. Começou a tocar um saxofone, ao fundo. Parecia que uma força sobrenatural tinha trocado o cd; nada mais da alma do que a batida de um Soul. E Eduardo, sentado, com os lábios encostados no batom seco, ainda sentindo o gosto dos lábios da loira. Claudio, ao perceber que aquela cena tinha chamado atenção de todo o bar, chamou Eduardo. Eduardo! Eduardo! Só a segunda vez, bem mais alta e mais frustrada, que ele levantou os olhos para o amigo e gritou "já estou indo, porra!" e se levantou.
Eduardo não estava com cara de quem queria explicar algo. Paulo, que o melhor conhecia, tentou inicar uma polêmica sobre o quão pouco o Soul é priorizado no Brasil. Em outras circunstâncias, Cláudio já teria começado a gritar com o Paulo, chamando o de burguesinho de uma figa e vendido para os capitalistas opressores. Mas não, Cláudio estava mais interessado em saber o que havia acontecido por ali. "Cara, o que foi isso? Não vai falar nada?" "Cala a boca, Claudio", tentava, em vão, Paulo. Eduardo começou a balançar a cabeça.
Eduardo tentava pensar, tentava entender o porquê tinha sentado ao lado dela. Tentava compreender o porquê de que o olhar dela era tão mais penetrante do que todos, o porquê seu batom era tão mais apimentado que os outros. " Cara, ela simplesmente desfocou a minha visão", foi o veredicto de Eduardo e tanto Paulo, quanto Cláudio decidiram não tocar mais no assunto.
Eduardo sempre usou a tática do desenho como um meio de concentração. Quando assitia alguma aula, desenhava no pé da página e assim concentrava todas as suas atenções no que o professor falava. Mas já fazia alguns dias que desenhava para retomar a memória mais relevante que tinha na sua cabeça. Tentava fazer com que as cervejas do resto da noite, não tenham desfigurado a imagem que tinha daquela loira. A sua loira! Aquele ombro à mostra, os olhos azuis, a maquiagem borrada, os olhos inchados, o esmalte vermelho descascado, os olhos profundos, o batom vermelho, os olhos. Os olhos, os olhos, os olhos. Desenhava seus olhos por todos os lugares, imaginava-se nadando na imensidão daquele mar azul, tão tenebroso.
Era já umas nove horas de sexta. Já fazia duas semanas desde aquele beijo, Eduardo estava em abstinência. Roberta já tinha ligado duas vezes para saber se iriam sair ou não. Eduardo só queria tomar uma cerveja, só queria sorver algo, só queria um anestésico ao seu desejo. Roberta estava ali. Cerveja estava ali. Era só chaviar a porta e abrir os portões para a vida boêmia. Roberta o buscou no seu apartamento, os dois foram para o QG.
Roberta não desgrudava. Eduardo já estava com asco daquela mulher tão certinha, tão bem vestida, tão inteligente, tão papo cabeça. Eduardo queria o tumulto daqules outros olhos azuis. Eduardo queria o devaneio daqueles cabelos embaraçados. Claudio chegou junto com um tal de Ciclano, que tinha uma cara de quem estava pela briga. Fazia já uns bons dez minutos que o Ciclano encarava algo nas costas de Eduardo e isso, junto com as mãos suadas de Roberta, estava o deixando tão irritado a ponto de sair correndo dali. Olhou para trás: para quê? Lá estava o cara que não tira o olho o Ciclano: o mesmo Beltrano de jaqueta de couro, alto e que era o último destino da loira. O cara que ouviu um"já vou", o homem que tinha domínio daqueles olhos azuis. Como alguém tinha domínio de tal poderosos olhos.
Ciclano falou algo do tipo "Não aguento mais" e partiu em direção ao Beltrano. Um soco estrondou no ar e silenciou o resto do bar. Eduardo, com que involuntário, levantou-se. Procurou, desesperadamente, ela. Viu, num canto, os olhos. Os olhos, ah!, os olhos!
Correu em direção a ela e a pegou pelo braço; imediatamente, Ciclano parou te bater no Beltrano para ver quem havia tirado a prêmio do lugar. Quando ia em direção a Eduardo, já com o punho erguido, o outro, já com o nariz sangrando, o puxou pela perna. Cláudio olhava para Eduardo, com um olhar suplicante, pedindo para que não. Eduardo disse, vem. Aqueles olhos vermelhos, perdidos, responderam com uma lágrima. Ela entregou sua mão às de Eduardo e deixou-se levar.
Essa foi apenas a segunda vez que viu aqueles olhos, tristes, dramáticos, vazios.
segunda-feira, 4 de maio de 2009
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