segunda-feira, 27 de abril de 2009

a primeira vez

Eduardo era um cara que sabia das coisas. Sabia o que queria, o que acreditava, que filmes gostava de ver. Eduardo tinha fama de ser bem decidido, independente e fiel com suas palavras. Eduardo dizia que tudo se baseava em princípios e que princípio é algo fixo na vida. Eduardo acreditava que todos podiam mudar de estilo, casa, carro, gostos musicais - mas quem mudava de princípios não tinha caráter.
Eduardo sabia qual era seu maior sonho: ser dono de seu nariz. Viver, estudar, viajar, morar - tudo com o suor de seu trabalho. Tinha o pecado da mesquinhez consigo, mas não negava nenhum favor à algum conhecido. Economizava ao máximo e Estava sempre se acumulando de trabalhos toscos e temporários de fim de semana. Eduardo queria ter dinheiro para ter o amor que se compra: o amor material. Seu amor material eram os seus vinis e os cuidava como pensava cuidar de seus futuros filhos que acreditava que teria quando conseguisse ter aquele tipo de amor que não se compra.
Eduardo não resistia a um "happy hour" - tinha sempre aqueles fiéis escudeiros de prontidão para uma reunião de emergência no antigo e eterno quartel general. Seu QG era aquele barzinho amigo, não tão limpo, não tão frequentado, com cerveja não tão cara e com cadeiras não tão confortáveis - mas os garçons, ah!, esses já sabiam qual hino por quando Eduardo e seus Soldados chegavam no fim de uma quente quarta feira: Breakfast In America era a pedida.
Foi então que ela entrou: meio que tropeçando, jeans sujo. Nunca tinha visto um cabelo loiro tão embarassado. Ela sentou numa mesa aos fundos, acendeu um cigarro. Chamou o garçom pelo nome e pediu uma cerveja barata. Eduardo não pode não sentir uma pontinha de raiva, ela sabia até o nome do seu garçom, "Meu garçom!", pensava Eduardo. Ela não parava de mexer no celular, olhos inchados. Suspirava, curvava a cabeça contra a mesa, bufava, tomava um gole brusco de cerveja. Paulo falava algo sobre como não estava mais aguentando seu professor de anatomia e que não conseguia parar de imaginar sua colega como o cadáver para examinar. Eduardo meio que ouvia, enojado, mas não conseguia parar de olhar pelo canto de olho para ela: ela o irritava profundamente. Aquele batom vermelho, borrado, aquela blusa que deixava grande parte do ombro esquerdo de fora, aquela mão suja que não parava de enredar mais aqueles cabelos... tudo aquilo o fascinava tanto! Claúdio, que já estava no seu segundo monólogo sobre a educação cinematográfica brasileira, cansado da indiferença de Eduardo deu um grito: puta merda!, esbravejou Eduardo que se levantou e caminhou em direção a mesa dela. Sentou do lado da loira. Ela o olhou de canto de olho, sem nem levantar o rosto, e ofereceu seu copo, sujo de batom, para ele. Ele analisou o copo, toda aquela cena nouvelle vougue, pegou o copo, não reconhecia que musica estava tocando, e encostou seus secos lábios no batom do copo. Ela reagiu, fixou seus grandes olhos nele. Foi a primeira vez que Eduardo sentiu-se hiptonisado por aqueles grandes olhos azuis, aprofundados em olheiras escuras e escondidos por uma maquiagem pesada.

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