Aurora já não sabia mais sambar. Na vida, havia quebrado o pé. Tinha quebrado o pé da vida e já via que todo o chão era assas hostil para pisar. Aurora nem queria mais ver o que restava do pôr-do-sol. Ela não sabia já sambar mais.
A morte tinha a encarado. Frente a frente com aquele rosto tão frio, tão cínico. Parecia que a Dona ainda sorria, enquanto arrancava, não com pouco esforço, Julio dos braços de Aurora. Aurora puxava perna, puxava braço, agarrava os frios crespos daquela braba até que, segurava um nada. Já Julio levava tudo. Levava ele, levava seu calor, levava sua amada. Aurora se via indo e se via ficando. Aurora ia e ali ficava. Aurora sozinha ficava. Levaram todo seu gingado, seus passos treinados com tanto esmero.
Aurora não queria mais saber de sambar. Na tragédia, tinha perdido suas pernas. Não tinha mais piso para se assentar. Nem Chico, nem Elis, nem eu, nem você - ninguém conseguia criar a trilha para parar aquele pranto. Julio levava toda a musica e o único som que deixou Aurora ouvir foi o eterno barulho daquele carro apressado. Apressado demais para apressar a vida de alguém. Julio passava e aquele barulho de motor se aproximava... Julio ficou e o barulho de motor se afastou. Aurora não queria mais ver ninguém sambar.
Um culto ao bulbo, meus amigos! Um culto àquele que faz continuar. Um ode ao bulbo que mantém os movimentos involuntários enquanto o que o cérebro quer é parar. Um ode àquele que avisa ao nosso diafragma que deve subir. Um aleluia ao bulbo que lembra nosso coração que ele deve continuar bombeando.
quarta-feira, 3 de junho de 2009
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