sábado, 27 de junho de 2009

e tuas mãos não estavam frias

No meu primeiro domingo de inverno ensolarado em Porto Alegre eu te vi. Ainda lembro da cor da tua manta, do sol se escondendo nos teus cachos. Andando meio sozinho, meio acompanhado de um casal, e eu não conseguia parar de olhar. Três, quatro dias depois fui no ensaio da banda de um amigo e eles tiveram que mudar o guitarrista emergencialmente: foi lá que te vi pela segunda vez. Meio tímido, muito charme. Sorriu para nós por pura simpatia obrigatória. Alguém te chamou de Bob Dylan e eu sorri e pensei: viu, não sou só eu que acho.
Durante três anos nos encontramos algumas varias vezes. Pareciamos ter alguns amigos em comum e acabávamos sentando na mesma mesa de vez enquando. Eu tinha que me controlar para não te olhar. Frequentavamos os mesmos locais e vira e mexe lá tu estavas, encantador. Uma vez eu dancei bêbada para ti; tu percebeu. Eu ia cair; tu me segurou. Por alguns segundos eu fiquei no teu colo e trocamos olhares cheios de segundas intenções. Mas, quem sabe pela tua parte também, aquelas segundas intenções não deixaram de ser intenções por causa do encanto que causamos um no outro.
Uma vez eu cheguei no nosso bar de mãos dadas com outro cara. Teu amigo. E sentamos na mesma mesa. Passamos a noite conversando, eu e tu. Eu te olhava e pensava "por que só agora?" e torcia para que tu pensasse " por que há mais pessoas aqui?", mas nossas frases foram regurgitadas pela boca e ficaram trancadas nos olhos.
Esse ano te vi duas vezes, até ontem. Nada demais, mas ontem... ah! quanto tempo eu não te via! Eu entrei e teus olhos estavam postos em mim. Te dei um 'oi' e percebi tua atordoação - mas rapidamente te recompôs e respondeu meu oi. E assim ficou, como sempre ficava. Mas eu te olhava e tu estavas me olhando. De repente, tua voz ao meu ouvido. Tua mão no meu ombro, tua risada, tua conversa, teu súbito interesse na minha vida. Tu não usavas a mesma manta e tinha as mãos quentes.
Nós tínhamos tudo para concretizar nossos três anos de desencontros. Mas, que medo tive eu de destruir a aurea de encanto que tinha o teu nome. Pavor de um coração partido, pavor de não poder mais sentar na mesma mesa que tu. Tivemos medo de não sermos o que sonhamos um para o outro? Tínhamos tudo para acontecer mas prefirimos esticar nosso sonho. Quem sabe ainda não era hora, quem sabe nosso momento ainda não chegou...
Quem sabe um dia tu deixes de ser só o meu Bob Dylan intocável e eu deixe de ser a ilustração que eu possa ser tua. Vai ver chegará o dia em que seremos só duas pessoas com um simples interesse em comum. Ou, quem sabe, tu serás minha eterna prova que tudo é perfeito do jeito que é e que deve ser.

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