quarta-feira, 12 de agosto de 2009

o bom filho a casa sempre torna

Meu sonho sempre foi o de morar sozinha; ter meu próprio cantinho que eu possa organizar (ou não) do meu jeito. Eu controlo o som e o controle remoto. Se a geladeira está cheia de comida ou não, se têm livros espalhados pelo chão. Não dar satisfação pra ninguém, andar pelada. Já faz três anos que vivo nesse 'sonho' e, digamos assim, não é tão brilhante assim - na verdade, usei um adjetivo inapropriado, já que só faço limpezas nas sextas feiras e hoje é recém o meio da semana. Ter que ver o que está na geladeira, sempre. Ter que saber que livros estão espalhados no chão, sempre. Além de do controle, tenho nas minhas mãos contas e mais contas para controlar. Solidão nos domingos chuvosos; não ter para quem gritar "boa noite!". Acredito que estou fazendo o que é melhor e, na maioria dos tempos, não trocaria.
Mas sinto falta das jantas do meu pai, das chatices da minha mãe com as gatas dela. Tomas mate antes do almoço na minha avó, das implicâncias entre colorados e gremistas com meus tios e avôs. Os gritos nos churrascos, o eterno "me trás uma cervejinha" e as discussões que nunca levam a nada. As tiradinhas que sempre tem, as frases clássicas. As gargalhadas, o não entender todo mundo gritando. As piadas, as histórias de antigamente. Os desaforos, as brigas. As mil e uma programações de viagens que nunca saem e as que saem. Meu pai me implicando e meu tio me apertando. Os cascudos que eu do no meu primo e a bateção de boca com meu dindo. A eterna discussão na quarta feira, minha mãe dizendo que meu pai só pensa em futebol. Minha irritância em ter que ver novela. A eterna fiscalização do meu pai para saber onde estou, com quem estou e onde vou. A chatice da minha mãe dizendo que eu só penso em festa e que é pra voltar cedo. A sagrada hora da sestia, deitadas no chão embaixo do sol, minha mãe e as duas gatas. O colo do pai. As eternas e constantes brigas com o pai - sempre os mesmos assuntos, sempre as mesmas reclamações. O colo da mãe. O silêncio que alivia. O colo dos dois para desabafar minhas angústias, frustrações e medos. A dor de dizer que eles tinham razão. A dificuldade de dizer "eu te amo" e a angústia de não se fazer entender. As brigas constantes e o silêncio que dói. As mentiras, as revoltas, os "te odeio!" e os "deixa eu fazer do meu jeito!". As bateções de porta, as tentativas de reconciliação. O abraço contido, o aconchego tímido. O silêncio carinhoso. Acordar com pulos na cama e o café quentinho do pai. Domingo, os três na cama, lendo Zero Hora. Churrasco, risadas, gritos, contos, histórias, fatos, piadas, implicâncias, grêmio, inter, vestibular, amores, tiradas, lendas, viagens, planos, política, religião, lula, yeda. E a dor de dizer tchau. A vontade de chegar logo no apartamento e ficar no meu silêncio rotineiro. A dor de chegar em casa e não ter para quem contar sobre o fim de semana. Ver que quem realmente nos ama está ficando quilômetros de distância. Perceber que a gente está ficando adulto e não adorar totalmente a sensação. Ver que a vida continua. Dar aquele abraço de despedida apertado, dolorido, pungente. Engolir nas lágrimas, por os fones de ouvido e o pé na estrada. Qual música escolher?
Mesmo vivendo meu sonho, que vontade de gritar "Boa Noite, John Boy!" e ouvir o "Boa Noite, Mary Ellen!" que eu cresci ouvindo sem nunca dar muita bola.

Um comentário:

  1. Izófirazinha... Não preciso dizer que a tua "tia-emprestada" chorou ao ler este post, né? Amei tudo o que está escrito e acho que deverias mandar para os teus pais lerem.. só este post... se me autorizares eu mesma mando...
    Um beijão, fica com Deus e tenha certeza que estaremos SEMPRE contigo!!!

    ResponderExcluir